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Suicídio não é frescura! Mas sim a vontade de acabar com a própria dor

São registrados aproximadamente 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais tratáveis como a depressão, transtorno bipolar e abuso de substâncias. O psicólogo Stênio Marques alerta sobre a importância de informar e como prevenir esse ato de tristeza intensa

29/08/2020 21h11
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Por: Redação Fonte: JC comunicação
Suicídio não é frescura! Mas sim a vontade de acabar com a própria dor

 

Saúde mental deixa de ser tabu e começa a ser assunto muito discutido nos últimos anos. Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza nacionalmente o ‘Setembro Amarelo’. O dia 10 do mês setembro é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a campanha ocorre durante todo o ano. Em meio a pandemia causada pelo novo Coronavírus a taxa de suicídio aumentou e precisa ser analisada mais de perto. Para discutir o tema, o psicólogo Stênio Marques aborda pontos importantes sobre o assunto.

Segundo informações da ABP, são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais tratáveis. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias. “É relevante destacar que pessoas com essas doenças precisam de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, fazendo uso, inclusive, de medicamentos ou mesmo internação, quando necessário”, explica Stênio. De acordo com psicólogo um tratamento eficaz é a intervenção psicossocial. “Este método inclui entrevistas motivacionais e o atendimento contínuo depois da alta do paciente”.

Stênio chama a atenção para outro ponto importante no processo do suicídio. “Nós não podemos perder de vista que o suicídio é também um problema de saúde pública. Neste âmbito ações podem ser feitas, como a campanha do ‘Setembro Amarelo’”. Ele revela que estratégias nacionais e locais de prevenção, conscientização, questionamentos e enfrentamentos de alguns tabus é de extrema importância na detecção e no tratamento precoce desses transtornos mentais. “Controle de meios letais, como a redução de armas de fogo, regulamentação do comércio de agrotóxicos, arquitetura segura em locais públicos, e também treinamentos de profissionais de saúde em prevenção do suicídio pode ajudar a evitar atitudes extremas”, explica.

O suicídio não deve ser visto como uma ação individual e tampouco como um ato de coragem diante de um sofrimento psíquico intenso. “Quem toma esse tipo de atitude está cheio de sofrimento psíquico e acaba não enxergando nenhuma solução possível no momento”, diz Stênio. Ele complementa dizendo que uma das maneiras mais contundentes de combater as angústias e o sofrimento é falar sobre os sentimentos. A segunda coisa a se fazer para prevenir o suicídio é ser um ponto de apoio para as pessoas que estão em conflitos. “Muitas vezes não é fácil identificar quando uma pessoa está com ideação suicida, por isso, devemos agir com clareza com o sujeito, caso venhamos suspeitar da intenção”.

Ao deparar-se com alguém próximo a essa situação, é necessário acolher e escutar, isso contribui para que o sujeito consiga dar nome a sua dor, consequentemente, elaborar seus conflitos. “Essas atitudes nos levam a compreender o plano, os motivos, as consequências, para de fato, saber como ajudar”, disse Stênio. O apoio psicológico ou psiquiátrico faz parte desse processo de ajuda, o Centro de Valorização a Vida (CVV) é um serviço que também contribui com essa rede de apoio. “Quando você se deparar com alguém que já está em meio a uma atitude extrema, o correto a se fazer é levar a um hospital ou chamar o SAMU para uma intervenção médica”, alerta Stênio.

A depressão é uma das doenças pré-existentes causadora da maioria dos suicídios do Brasil, mas ainda é vista com muito preconceito pela sociedade, o que deve ser combatido. De acordo com o psicólogo, isso se deve à falta de conhecimento, porque quanto maior o estigma, maior será o medo, a ansiedade e a angústia. “Esses preconceitos, muitas vezes, vêm dos próprios familiares e dos colegas de trabalho. A depressão é uma doença considerada grave e que tem um tratamento longo. Esta doença não é sinônimo de fraqueza, falta de caráter ou preguiça, ela deve ser considerada como qualquer outra doença, séria que merece tratamento adequado”, destaca Stênio. Com essas informações em mãos será possível observar esses pré-julgamentos, para que ajude as pessoas nesse processo, e não as atrapalhe.

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O psicólogo Stênio Marques fornece algumas orientações para pessoas que estão atravessando esse momento.

 Stênio Marques | Foto:Daniel Castejon

“O primeiro passo é tentar compreender esses processos que lhe causam dor e angústia, e entender que a depressão é uma doença que precisa ser tratada”. A busca pelo tratamento é o segundo passo, pois é a forma que a pessoa conseguirá elaborar esses conflitos para conseguir ter um novo sentido de vida.

“Esse tratamento envolve o psicoterápico, que por meio da fala ele consegue dar nome para o sentimento. Ainda, se houver necessidade, deve-se fazer acompanhamento psiquiátrico, inclusive com tratamento medicamentoso. Esses processos se fazem necessário, pois ambos os tratamentos podem e devem caminhar juntos”, revela.

O suicídio é considerado pelo Ministério da Saúde (MS) um problema de saúde pública, tirando a vida de uma pessoa por hora no Brasil, mesmo período no qual outras três tentaram se matar sem sucesso. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, através de atendimento voluntário e gratuito à todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Ligue 188!

Para os que convivem com alguém nessa situação o primeiro passo é buscar o entendimento, o que implica no acolhimento. “Acolhimento é uma das coisas que tenho falado desde o início, porque o sujeito que está vivenciando momentos difíceis, conflitos internos, precisa ser compreendido e acolhido em seu sofrimento, para que haja possibilidades na vida”, enfatizou.

A mudança de comportamento para com a pessoa, no sentido de estar mais próxima, se preocupar e de cuidar facilita no enfrentamento de qualquer problema de ordem psicológica. É importante que mais informações cheguem, pois é necessário falar sobre os motivos que levam alguém a tirar a própria vida. “É preciso falar quais são os caminhos para prevenir esse ato, que as pessoas se conheçam e assim possam ter um novo sentido de vida e aprendam a lidar com suas emoções. É também fundamental não reforçar esses estigmas de que suicídio é frescura, é não saber lidar com os problemas, entender que quem comete suicídio não quer morrer, e sim acabar com a própria dor”, finaliza.

 

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