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Geral História e cotidiano

O Capitão-donatário está entre nós

A insistência em não cumprir normas é situação comum no Brasil.

22/07/2020 09h45
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O Capitão-donatário está entre nós

É fácil perceber que existe uma cultura fortemente estabelecida neste sentido, em que para muitas pessoas não cumprir o que está posto como norma é atitude de auto-afirmação

individual capaz de gerar um “orgulho de si mesmo” (o famoso “se achar”) tão narcisista quanto prejudicial ao bem estar da coletividade. Desde um simples “não pise na grama”, passando pelo “use máscaras em locais públicos em tempos de pandemia” até as atitudes mais irresponsáveis no trânsito ou as mais cruéis mesmo na privacidade inviolável dos ambientes familiares, muitas pessoas insistem em se orgulhar de não cumprir as normas de respeito, educação e de preservação do patrimônio público ou alheio. 

É comum a justificativa da desobediência passar pelo clássico argumento “Você sabe com quem está falando?” seguido da referência a credenciais normalmente relacionadas ao próprio poder econômico ou investido pelo Estado. Daí, rasga-se multas “na cara” do guarda, grita-se “Ele é engenheiro! Melhor que você!”, “Aqui é Alphaville! Você ganha mil reais por mês eu ganho trezentos mil por mês!”.

Mas, sejamos realistas quanto a nossa própria história! E nela, ser “amigo do rei” e “amigo do amigo do rei” é a licença para a arbitrariedade sonhada por muitos – mandonismo mesmo!

D João III, em 1534 doou as terras das capitanias hereditárias aos capitães- donatários (normalmente filhos bastardos de nobres portugueses ou comerciantes amigos e que gozavam de certo prestígio junto àquela nobreza) que gastaram suas próprias fortunas para construir embarcações, arregimentar colonos, viajar até o Brasil numa viagem que, na época, durava mais ou menos três meses em embarcações pouco confortáveis e aqui construir, do nada, vilas, estruturas de plantação, corte e exportação de cana-de-açúcar e fortes para resistir às invasões dos franceses. Dentro de sua capitania, o donatário era a maior autoridade administrativa, jurídica, militar e respondia apenas ao rei de Portugal, um detalhe importante numa realidade hostil, isolada, incomunicável, em que toda a noção de justiça, de certo e errado, ficava a cargo de uma pessoa (o próprio capitão-donatário), amigo direto do rei, ou de quem essa pessoa atribuísse poder semelhante ao dela (o sesmeiro).

Um dos poderes do capitão-donatário era o de, da “telha dele” ceder terras (as chamadas sesmarias) a outras pessoas e, claro, conceder também o poder de mandar! Esses sesmeiros (amigos do amigo do rei) foram os primeiros grandes latifundiários que fundaram a tradição centenária de clientelismo e patrimonialismo no Brasil, articulada à maneira escravagista de compreender e tratar a força de trabalho alheia.

Mesmo após a Lei Áurea (1888) e a Proclamação da República (1889) esta tradição se infiltrou como uma cultura política de coronelismo e romantização idealizada do militarismo e suas incursões sobre o poder central nacional e “Brasil adentro”, que só foi amenizada muito recentemente a partir da Constituição de 1988. 

Mas uma cultura terceiro-mundista centenária não se supera com leis somente.Cultura de atraso se supera com educação... e cultura! Cultura de respeito às opiniões (mesmo quando divergentes), respeito à integridade física, emocional e aos direitos das pessoas, cultura de preservação do patrimônio público e de devido valor ao trabalho alheio!

Hoje com a massificação sem precedentes do acesso à informação temos a oportunidade de olhar toda a nossa história passada e a história que se faz hoje, de maneira crítica e superadora do espírito político tacanho dos tempos do capitão-donatário, mas numa realidade em que as tecnologias da informação são determinantes sobre as opiniões, atitudes e voto, inevitavelmente, de pessoas mal formadas e mal educadas.

Diante disto, qual o lugar do chavão "Você sabe com quem está falando"? Qual deve ser o lugar dos relatos (tão comuns!) de amigos e familiares sobre os próprios feitos em que fazem questão de contar como vantagem o fato de terem dado um “jeitinho” de burlar a norma por ser “amigo do rei” ou por simplesmente entender que tem um “rei na barriga”? Qual o lugar do capitão-donatário em nós e entre nós?

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